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Mochileiros.com

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um relato belíssimo de quem já fez a travessia! Vale a pena ler todo!

JERI-CAMOCIM, PERNADA NA COSTA DO SOL POENTE 

Uma das mais tradicionais travessias litoraneas do Nordeste vem ultimamente perdendo espaço para algo bem mais civilizado: os bugues, oriundos de praias mais próximas à região metropolitana, como Pecem, Mundaú e Amontada. Contudo, independente do uso ou não de veículos, a Jeri-Camocim continua sendo uma daquelas pernadas que prima pela beleza de suas largas praias virgens como pelo verdadeiro espírito aventureiro que proporciona. Prazer redobrado pra quem faz estes quase 50km a pé, ilustrado por dunas, lagoas, mangues e comunidades de pescadores, que ajudam a compor o perfil deste que é um dos últimos roteiros selvagens no litoral mais bonito do Brasil. 

Eram 5hrs da matina e ainda tava escuro quando arrumei as coisas e joguei tudo dentro da mochila, para depois deixar o simpático camping da "Pousada Juventude", em Jericoacoara. Na verdade, era somente pousada, mas os jovens donos permitiam acampar em terrenos planos e arvorizados na frente dos chalés por meros R$5, motivo pelo qual  havia barracas saindo pelo ladrão. A superlotação do local, mas principalmente o som ensurdecedor ao lado - ora do bate-estaca techno ora da sanfona elétrica-forrozeira - fizeram que antecipasse a saída para Camocim...




 Não que Jeri fosse sacal, pelo contrario. Jeri é uma miragem no meio do deserto litorâneo-árido cearense, uma babilônia de mochileiros de toda parte do mundo, um local para descansar e badalar, onde ou se curte o dia ou a noite. Não é a toa que no verão a população se multiplica 15 vezes, baladas comecam depois das 23hrs e padocas estão abertas 24hrs. E o único local onde jegues, cavalos e vacas circulam livremente pela praia em comunhão mais que normal em meio à gringaiada e caiçaras locais. 
Voltando à pernada, por uma travessa deixei a Rua do Forró para chegar na Rua do Meio (ou Principal, sei la), as unicas "avenidas" de areia que aqui servem de referencia. Havia alguns jovens, remanescentes da noite perambulando com seu goró e baseados (é "AQUELE" mesmo) em punho. Diferentemente dos demais dias, aquela segunda-feira tava nublada e bem fresca, o que era ótimo, afinal não iria torrar sob o sol inclemente no periodo da tarde. Deixei a vila até alcancar a praia principal sentido à Praia de Mangue Seco, 5km para oeste. Mas não sem antes ladear o sopé da famosa Duna-do-Pôr-do-Sol, onde, sagradamente, todo mundo se reúne todo dia para apreciar o crepúsculo. Maré baixa, praia larga, plana e de chão firme. Perfeito. Assim, deixo a cosmopolita Jeri para trás, com suas luzes noturnas faiscando sumindo gradativamente a medida q o céu se tinje lentamente de tons rubro-laranja típicos da alvorada. Alem da praia, à paisagem à minha esquerda se resume à algumas dunas baixas em meio à uma escassa vegetação, misto de restinga costeira e caatinga. Logo cruzo com alguns grupos de jovens voltando para vila, chapados, com guitarra em punho. Provavelmente ficaram farreando na praia fugindo da muvuca de Jeri. 
Já na Praia de Mangue Seco - identificada por uma torre em meio a um arvoredo praia adentro, ladeada por uma larga faixa de mangue soterrado - as pessoas se resumem a alguns pescadores jogando redes e/ou alguem caminhando pela larga e extensa praia. Não demora e a primeira moto passa por mim, sentido Tatajuba. Depois vem gente em bicicleta, no sentido contrario, e por ai vai. Os bugues, embora proibidos, so começaram a circular mais tarde. No horizonte, observo meu destino ao longe, contrastando com a retidão da planície arida de restinga que vou acompanhando, uma ponta bem mais arborizada para a qual me dirijo sem pressa alguma. 
Cinco quilômetros depois e sem nenhuma alma viva, me encontro no que parece o inicio da Praia do Guriú, marcada com a presença do rio do mesmo nome, manso e largo, e onde a vila devia se localizar mangue-seco adentro. Vários garotos esperam sentados em balsas simplérrimas - um grande compensado plano de madeira no qual cabe até um veiculo - a sua oportunidade de levar alguém pra outra margem e, quem sabe, ganhar algum "agrado". São apenas 7:30 e converso rapidamente com um deles enquanto empurra a balsa com um largo pau, forçando-o contra o fundo do rio, que não parece tão fundo assim. Me fala que mochileiros e ciclistas são freqüentes ali, enfim, estava habituado a gente como eu, fora dos padrões típicos de passeio de bugue. 
Em terra firme, já do outro lado, coleto as ultimas infos e continuo minha pernada. Como as balsas cruzam longe da foz, tenho que voltar para praia por um árduo caminho de areia fofa, acompanhado pela direita pelo Rio Guriu e do lado esquerdo por um exuberante mangue repleto de pernilongos, o que apressa a caminhada involuntariamente, claro! Passado o mangue e, após muito esforço, estou novamente na praia, um extensa faixa de areia que se estende ate onde a vista alcança, ladeada ora uma restinga arida ora por belas e enormes dunas. Aqui já não há ninguém, praia totalmente deserta. E é somente agora que o sol resolve aparecer em definitivo. Firme e forte. 
Os 15km seguintes são percorridos calmamente, apreciando a paisagem que se descortina a minha frente, composta pelas águas do mar - calmas e cristalinas - refletindo o ceu azul, e das alvas e belas dunas de perder a vista. Seguindo sob sol inclemente, lentamente vou me aproximando do foco verdejante - Quilometros adiante - que contrasta com a claridade horizontal da praia deserta. Esse foco de mata ao longe é Tatajuba e, entre pasos trôpegos e alguns merecidos pit-stops para descanso, alcanço meu destino por volta das 10:30. 
Ainda na praia, alcanço o foco verdejante, já um bem mais proximo de mim e que consiste em coqueiros perfilados encimados num morro de areia repleto de restinga, ou seja, uma alva duna salpicada de verdes arbustos. Ao sopé dela há um braço do Rio Gamboa, impossivel de cruzar a pé nem tampouco dispõe de barqueiros para esta finalidade. Ciente já disso, antes de chegar lá bastou seguir as marcas de bugue saindo da praia pra adentrar nas pequenas dunas, na tentativa de contornar o tal rio e atravessa-lo na parte mais rasa. O ritmo é lento, a areia fofa do trajeto - entre dunas baixas - aliada ao sol forte castiga a pele sem dó. Me sinto um Lawrence da Arábia tupiniquim. Nestas horas que é bom ter caronas, mas nada aparece no caminho. 
Exausto, cheguei finalmente no primeiro "quiosque" de Tatajuba, onde alguns motoqueiros e turistas de picape degustam alguma iguaria à sombra de um toldo de folhas de palmeira, ao lado de uma rústica casinha de sapé onde curiosos porcos circulam livremente por entre cadeiras e mesas. Descanso o suficiente apenas para saber que ainda não estava em Tatajuba, mas no que sobrou dela, a Antiga Tatajuba. Isto porque as dunas já haviam engolido a vila faz tempo, obrigando os moradores a se deslocar um pouco mais para oeste. Alguns poucos tetos de palha rente ao chão espalhados pelos arredores comprovavam isto, que a vida ali era imposta pelo humor do vento. Na verdade, ali havia somente aquela barraquinha para receber turistas de Jeri e o local era até bem bonito. Emoldurado por belas dunas, avistava-se um belo oásis com muitos coqueiros, contrastando com o resto da paisagem. Ao lado, um enorme braço do Rio Gamboa serpenteava duna adentro. E era por ali que se dava acesso para Nova Tatajuba, o vilarejo propriamente dito. 
Ao invés de seguir as trilhas de bugues e picapes, cortei caminho pois já avistava as primeiras casinhas do vilarejo, ao longe. Assim, desci a duna no qual me encontrava e caminhei um tanto pela areia molhada ate alcançar a margem ampla e rasa do rio, que atravessei sem problemas com água ate o tornozelo. Se a maré estivesse alta (o q ocorria à tarde) cruza-lo seria impossível, tanto que os moradores mesmos se diziam isolados de Jeri à tarde. Após andar por um trecho enlameado e em seguida de areia, alcanço as primeiras casas da vila por volta das 11hrs! 
Tatajuba tem a fama de ser "a Jeri de 2 décadas atrás", uma alcunha merecida para uma aldeia de pescadores espremida entre as pálidas dunas e o mar esmeralda. Com a mesma beleza de sua vizinha famosa, a diferença é que mantém a rusticidade e tranqüilidade típicas de um pequeno povoado que consiste em 2 ou 3 ruas de terra que se entrecruzam, casinhas de alvenaria espalhadas entre casebres mais rústicos, uma pequena igreja e só. Nada mais inspirador, relaxante e meditativo. Estrututra em si não vi nenhuma, o que me deixou apreensivo (e ate agoniado) porque tava doido pra beber uma(s) cerveja(s), mas nada de boteco nem pousada! Assim sendo, me dirigi pelo que parecia ser a "rua principal" - um amplo aterro que atravessava um pequeno mangue - em direção à praia e, sinuosamente beirando casebres e coqueirais, cheguei no que parecia ser a única pousada dali, rente ao mar. E era mesmo a única pousada! 
Na sacada funcionava um modesto refeitorio, e foi ali mesmo que fiquei pra descansar, me proteger do forte sol que agora fazia, e me esbaldar de cevada gelada, claro! A vista dali já era bem inspiradora, a praia logo abaixo e vários braços rasos de rio espalhado formavam diversas piscininhas. Na areia, proximo dali, o que não tava ocupado por restinga ou coqueiros mostrava sinais de construções deixadas ao relento, provavelmente futuras pousadas ou quiosques. Três simpáticas jovens comandavam o local, e logo apareceu mais gente: um biker de Jeri e um bugue ("Jegue Turismo") de Camocim, que deixou uma família inteira ali para almoçar. Conversei rapidamente com uma das proprietárias e me informou qie são poucas as pessoas que vão ate ali, por isso não existe infra alguma. A dificuldade de acesso, as dunas, as marés e a distancia ditam horários rigorosos pra quem se dispõe a conhecer esse pequeno paraíso. Comentou que a média de fregueses diária não ultrapassava 15 pessoas, e nós éramos os primeiros daquela segunda-feira! 
Após relaxar e observar o escasso movimento dali - pois o de bugues na praia era maior - 1 hora e 3 cervejas depois resolvi colocar pé-na-areia novamente, na tentativa de quem sabe conseguir carona, pois o sol ainda estava de fritar miolos. Desci suavemente o morrro de areia no qual me encontrava pra tomar novamente os rastros deixados por veículos na ampla e larga praia. Não andei nem 10minutos e bateu um cansaço e preguiça desgraçados devido à bebedeira a que me auto-presenteei por ter chegado até ali, e encostei na sombra de um enorme arbusto na escassa restinga rente à praia. Tratei de ficar visível pros veículos, que naquele horario começavam a rarear. Quando passava algum, me limitava a levantar o dedão, sentado na areia, na maior folga. Realmente não devia ter bebericado tão cedo (bebe, desgraça!) porque bateu um sono lazarento àquela altura. Assim sendo, dei um breve cochilo, lógico! Afinal, sou também sou filho de Deus. 
Logo depois retomei a pernada numa praia deserta e interminável, refazendo meus cálculos de tempo/distancia, já prevendo ter de pernoitar novamente em meio as dunas. Felizmente havia coletado água suficiente para esta finalidade, mas minha ideia era avançar o máximo possível ate Camocim. Fora isso, as praias provavelmente mudavam de nome, mas não o cenário: dunas brancas de um lado e areia dourada com mar azul cristalino do outro. Por conta disso, mas principalmente ao cansaço acumulado, este belo trecho foi sacal e monotono. Lamentei não ter almoçado algo com mais "sustança" em Tatajuba e tive que me resignar em beliscar um lanche enquanto caminhava. Mesmo assim, tava cansado. E nada de bugues. 
Quase 10km sofridos depois e o sol a pino, resolvi descansar na sombra fresca do q restou de uma cabana de pescador à beira da praia, semi-engolida pela areia. Foi ali também que o sol deu lugar permanentemente a uma nebulosidade clara e a um mormaço intenso, seguida de um forte vento, que trazia areia à velha choupana por todos lados possíveis. Meu cabelo, já impregnado da maresia salubra, ficou uma belezura com o complemento em grande escala destes grãos de quartzito. Nesse meio termo, fiquei estirado na frente daquele casebre, atento aos veículos que eram escassos devido provavelmente à maré alta, que estreitava lentamente a antes larga faixa de areia. Tava exausto, sem vontade de caminhar e foi ali que decidi pernoitar caso não conseguisse logo carona para Camocim. Na verdade não fazia ideia de quanto faltava até la, pois as infos de todos são desencontradas, mas acredito que não faltassem mais que 8km. Mesmo assim, andando chegaria na cidade à noite e seria forçado a ficar numa pousada, o que tava fora de cogitação. O jeito era ficar ali até a manhã seguinte, e assim continuar, se fosse o caso. 
Deviam ser quase 16hrs quando um bugue parou e me ofereceu carona, que não recusei. Milagre! Assim, os 5km restantes foram feitos na base da adrenalina, pois o cara pisou fundo, dando altas derrapadas na areia. O jovem motorista tava indo buscar gente em Camocim e contou que ali há mais bugues que canoas ultimamente. Principalmente máfias de bugues (!?) clandestinos, porque espalhou-se a ideia que para "enricar" rapidamente basta ter um veiculo para levar turistas, e por isto a oferta é maior que a procura. Pior, a identidade cultural de antigos pescadores e jangadeiros esta sendo lentamente minada pelo turismo, que estabeleceu uma nova escala de valores à vida dali. Enquanto falava, o bugue cortava as ultimas praias desertas dali - como Moréia e Imburana - serpenteando dunas próximas e ladeando mangues ou lagoas secas, até finalmente parar num extenso trecho de areia dourada, barrado apenas pela presença do enorme e majestoso Rio Coreaú. Na outra margem, barcos e canoas menores perfilavam-se aos pés do simpático porto que caracteriza Camocim. 
Agradeci o bugueiro e não demorou a aparecer uma grande balsa, na qual embarquei junto com outros 3 bugues que aguardavam antes de mim. Era engraçado ver quase todo mundo ali que eu vira passar enquanto caminhava e que não me deu carona, desde Tatajuba. A surpresa parecia ser recíproca. A travessia pelo Rio Coreaú não demorou nem 10min, sob águas mansas de cor verde berrante que se fundem com o mar da Baia de Camocim. Rio adentro, observam-se matas intactas e até algumas ilhotas de areia à preamar. Já em terra firme, tomo a direção para esquerda acompanhando o simpático porto, que é limpissimo devido à maioria das embarcações se constituir de barcos a vela ou jangadas. Em seguida, sigo por ruas de paralelepípedos, adentrando mais e mais na centenária Camocim, que embora seja a maior cidade da região, vive numa calmaria de ruas vazias e algum casario colonial, sob a sombra de arvores frondosas e o efeito entorpecente da brisa do mar. Dali segui para a pequena rodoviária, onde mandei ver vários pasteis após garantir minha passagem para Parnaíba, e dar continuidade à minha trip, agora em terrritorio piauiense. 

E assim é a Jeri-Camocim, pernada selvagem lentamente ameaçada pelos bugueiros. Isto porque a rústica Tatajuba já sonha com turistas em grande escala. Bela, preservada e cobiçada, não se sabe precisar quando ela deixará de ser "a Jeri de 2 decadas atrás" pra se tornar "a de hoje" mesmo. Enquanto essas indagações tomam conta das rodas de bugueiros, pescadores e locais, ainda há tempo para conhecer este belo trecho do intocado litoral cearense. Um trecho onde ainda se come peixe com farinha e cachorro urina em coqueiro por falta de poste. Sé não se sabe ate quando, porque ultimamente a vida e a cultura local são rejidas com extrema facilidade e pouca sutileza, seja pela ação caprichosa das dunas como pela força turística poderosa dos dólares.



Por Jorge Soto
Original em : www.mochileiros.com

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